Estou preocupada por várias razões

Dezembro 21
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Olá a todas, Estou preocupada por várias razões e já vos explico porquê. Acabei de falar ao telefone com uma velha amiga que me confessou estar a atravessar um período muito difícil na sua vida. A conversa fez-me pensar muito e decidi partilhar convosco alguns dos meus receios e preocupações.

preocupada

O Natal deve ser um momento de alegria, pelo menos parte do conceito associado a esta data é todo ele envolto em sentimentos de felicidade e partilha. Mas, por mais envolvidas que estejamos com as nossas alegrias, continua a ser importante mantermos a preocupação para com o próximo. Não só aquele mais desfavorecido financeiramente, nem só aquela desprovida de família, mas com as pessoas em geral que precisam de carinho, apoio e atenção. Pergunto, como é possível estarmos alegres e felizes, se não tivermos contribuído minimamente para o conforto de quem mais precisa? A maior parte dos portugueses dizem-se mais solidários nesta altura, mas quando vamos a ver, percebemos que o louvável sentimento passou apenas pela compra de um, ou dois, “brindes solidários” naquelas pequenas bancas de rua. “Investe-se três ou quatro euros e ainda se faz boa figura, o brinde vem com o logótipo de uma instituição de boas causas”, pensam eles…

Esta minha amiga tem duas sobrinhas que ficaram sem mãe durante este ano e vivem agora a seu cargo. Ficou com uma única irmã e ela está de esperanças, sendo esta a sua segunda gravidez. Na primeira acabou por perder o filho e hoje, a obstetra informou-a sobre a possibilidade do bebé estar com trissomia 21. Para arrematar a semana, a querida mãe de ambas tem estado a sentir-se mal e a precisar da máxima atenção. Desabafou ainda sobre a sua preocupação com os seus filhos pois no meio de toda esta azafama, têm a árvore de Natal sem presentes e eles começam a estranhar.

Esta minha amiga é uma verdadeira guerreira, uma mulher daquelas com um M enorme. Trabalha que se desdenha e multiplica-se em apoios dentro e fora de casa. Além de boa profissional na área da saúde, consegue manter uma família unida e assegurar carinho, educação e atenção aos seus filhotes. No entanto, habituou-se a acreditar na antiga premissa “com trabalho e perseverança tudo se resolve”! Com dedicação, amor e estabilidade económica a família estará sempre bem… Infelizmente não é assim. Por isso mesmo, está tão assustada. Não só pelo drama que atravessa a sua família mais querida, mas sobretudo por não conseguir ajudar. Conhecem este sentimento? É desesperante querer muito e não se conseguir ajudar. A saúde é incontrolável. Por melhor que estejamos, há mistérios que a nossa ciência realmente desconhece. Por mais esforço e sapiência, durante séculos e séculos, que a humanidade tenha investido na descoberta do corpo humano, ele insiste em continuar por desvendar. Somos escravas desta ignorância e há pessoas fortes, muito fortes, a não descansar enquanto não ajudam quem está próximo. Mas, por vezes, nem os médicos nos salvam, quanto mais uma simples familiar bem intencionada.

Não sei se sabiam mas eu trabalho num hospital. Diariamente, cruzo-me com dramas terríveis e famílias desesperadas. Famílias que não encontram ajuda pois há ajudas que não se encontram mesmo, estão dependentes de verdadeiros milagres. E apesar da generalidade das pessoas pensar que os milagres não acontecem, isso não é verdade. Há milagres a acontecer todo o santo dia. Milagres protagonizados por terapeutas, por enfermeiras, por médicos, por assistentes sociais, por voluntários que visitam desconhecidos esquecidos em lares ou hospitais, pela força da união de uma família em redor do apoio que presta a quem está acamado ou preso a uma qualquer paralisia. As pessoas boas andam aí. E não são só aqueles com conhecimentos técnicos, mas especialmente todos os que dedicam uma parte significativa do seu tempo a ajudar o próximo.

Neste momento, estou preocupada com vários assuntos. Primeiro porque também eu não consigo ajudar a minha amiga, por mais simpáticas que tenham sido as minhas palavras. Segundo, por achar que AJUDEI muito pouco durante 2013. Não é que não tenha “ajudado” ou feito algumas compras no site da Unicef :), mas pensado bem, sei que poderia ter feito bastante mais. Terceiro, por não estar a conseguir passar às minhas filhas o verdadeiro sentido do Natal (e esse não envolve a palavra “presentes” nem referências ao “pai Natal”).

A conversa que hoje vos descrevi serviu para me abrir os olhos. De repente, quase como uma chapada, lembrei-me dos meus falsos problemas. No fundo, eu não posso, nem tenho o direito de me sentir infeliz. A não ser, pelo facto de não ter ajudado mais quem precisa. Tenho uma família com saúde, tenho um trabalho que me desafia, vivo numa uma casa quentinha e não me falta comida, sou por isso uma privilegiada e tenho essa noção. Gostava mesmo muito que as minhas filhotas crescessem a perceber quais os factores realmente importantes e qual o nosso principal papel no mundo. E por diferente que seja a cultura em que nos encontramos, a solidariedade tem de ser uma constante nas nossas vidas, simplesmente por sermos seres inteligentes.

Se as pessoas com saúde valorizassem mais a vida que têm, este país viveria uma onda positiva e a crise fugiria a sete pés, podem ter a certeza.

Voltando à questão do Natal, atrevo-me a dizer que nenhuma de nós tem o direito de pregar aos outros o bom coração que tem, caso não contribua minimamente para a felicidade de terceiros, dentro e fora de sua casa (nota – não nos devemos gabar nunca sobre bem que fizemos). Lembrem-se que ajudar faz bem a todos, a quem ajuda e a quem é ajudado. Não chega oferecer 5€ a uma qualquer ONG ou investir três horas por ano a visitar um familiar esquecido. É preciso mudar de postura permanentemente e passarmos a dividir o nosso tempo entre a família, o trabalho, nós próprias e os mais necessitados. Quanto tempo dedicaram este ano a ajudar os outros? Quantos milagres protagonizaram? Um?! 10? O ano tem 365 dias e nós temos duas pernas, dois braços e não nos falta nenhum dos 5 sentidos. Então porque raio pensamos somente em nós? (estou a generalizar mas sei que não somos todas assim)

Também conheço algumas tantas pessoas que acreditam estar a fazer o bem quando vão à Igreja. Mas a fazer o bem, só se for a elas próprias. Não é o euro que dão na Igreja, nem as dezenas de rezas que vai salvar os pobrezinhos e os velhinhos esquecidos em casa. Por isso não entendo como alinham em frente a Jesus para depois irem comer grandes perus recheados com castanhas, evitando passar o olhar pelos mendigos à porta da Igreja. Eu sei que não se repara, mas na ultima missa onde estive, reparei num casal que deixou dois euros na cesta do peditório (excelente contributo). Mais tarde encontrei-nos no Santini de Cascais onde se lambuzavam com dois grandes copos de gelado (no mínimo gastaram 6€). Não acham isto errado? Sabem porque nunca aceitei um convite para um jantar de solidariedade? Reparem bem nesta minha perspectiva: cada lugar numa mesa destes jantares custa normalmente 50€. O dinheiro, no final, serve para pagar ao catering (por vezes até é oferecido) e segue depois para uma instituição de solidariedade ou qualquer outra boa causa. Normalmente estes jantares estão repletos de pessoas bem vestidas, contentes pelos 50€ que deram para “os pobrezinhos”, ao mesmo tempo que se pavoneiam com sapatos de 300€, fatos e vestidos de 1500€ e carteiras com preços ainda mais elevados. Santas pessoas que de generosas têm tanto… tanto, tanto que são capazes de gastar mais dinheiro  numa garrafa de champanhe do que no dito “jantar de solidariedade”.

Já muitas vezes ouvi dizer, mais vale uma pequena ajuda do que ajuda nenhuma. E claro, qualquer ajuda é de louvar. Mas, a essas sábias pessoas quero acrescentar que de hipocrisia está o mundo farto. Se alguém com poucas posses oferece aquilo que pode, vale milhares de vezes mais do que quando os ilustres magnatas oferecem os seus contributos em tom de esmola.

Resumindo (já me estou a esticar, desculpem a extensão do texto), acredito que se queremos ter um NATAL FELIZ devemos todas tentar fazer um pouco de voluntariado com quem está sozinho ou com fome. Há milhares de pessoas acamadas em hospitais sem qualquer pessoa no mundo, há milhares de portugueses com frio, sem dinheiro para se aquecerem, há também aquela pessoa de família a quem nunca mais telefonámos… e nós, pessoas inteligentes que somos, não podemos/devemos sorrir na noite de Natal se não cumprirmos o nosso papel de ser humano.

Experimentem investir uma hora por semana num qualquer projecto de ajuda a terceiros e vão ver que se vão sentir melhor e ao mesmo tempo dar alegrias a quem não as tem há muito. Se puderem ajudar financeiramente as organizações especializadas, excelente! Mas para além disso, tentem o contacto humano com quem precisa de atenção, de modo a dar-se um MILAGRE. É verdade, todas nós podemos fazer milagres, é só uma questão de querermos, acreditem.

preocupada milagre

Estou preocupada com o rumo deste povo português, por perceber mais de queixas do que de agradecimentos. Por estar sepre a querer tirar em vez oferecer, por preocupa-se exageradamente com quem tem, em vez de com aqueles que nada têm, quando podia perfeitamente e simplesmente dar valor à VIDA.

Neste Natal pensemos nos milagres que podemos realizar em 2014 e façamos todas por isso. Não podemos continuar a ser espectadoras de todo este descalabro. Arregacemos as mangas e mãos à obra. Há pessoas com problemas reais, a precisar da nossa ajuda e há uma gigante felicidade à nossa espera se todas ajudarmos um pouco mais.

E pronto, era só isto.

beijinhos a todas,

Mónica

  1. Susana

    Dezembro 21

    Parabéns pelo texto

  2. Eliene

    Dezembro 22

    Tem toda a razão, todos temos de ajudar mais os necessitados. Estou farto de pessoas egoístas por toda parte Obrigado pelo seu texto e só espero que toque no coração de alguém

  3. Sueli

    Dezembro 22

    Agora estou comovida. Para o ano quero ser melhor com a minha mãe que está longe. Vou ligar para ela hoje. Obrigado Mónica e feliz Natal

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