Quando a morte chega devagarinho

Setembro 5
5 Comments

Olá, olá! Quando a morte chega devagarinho. Nos últimos anos a vida tem-me presenteado com um momento muito doloroso por ano. Posso dar graças a Deus por nunca ser nada com as minhas filhas e por ser apenas um por ano. Como diz uma amiga “Tu não tens sossego!”, é verdade, mas podia ser pior! Pelo menos tento encarar a vida desta forma, seja por defesa ou como diz o meu marido “por ver sempre o lado positivo das coisas”.

Nos últimos meses assisti a uma das coisas mais duras com que já me deparei, ver diariamente a morte da minha avó a chegar devagarinho. Como vos contei há dois meses, a minha avó caiu na rua e fracturou o colo do fémur. Claro que para uma senhora com 95 anos completamente independente e que não aceita a sua idade, isto foi o principio do fim. Foi operada, ficou acamada e internada desde aí num centro de cuidados continuados. Apesar de no inicio não estar bem com a noção da gravidade, passado algum tempo começou a perceber qual era o real cenário para o seu futuro. Deixou de comer e beber e entretanto, descobriu-se um cancro já com metástases.

Fui visitá-la praticamente todos os dias para a acompanhar e dar-lhe os últimos tempos com o maior amor e carinho possível, mas saía  sempre de lá como se me tivesse passado um camião por cima. Quando via que estava mais animada levava as minhas filhas, pois eram a sua maior alegria. A Tezinha levou-lhe a sua Nossa Senhora de Fátima para olhar por ela, e a minha avó ficou toda derretida com o gesto da bisneta.

Mas infelizmente os dias foram passando e o fim cada vez mais perto. Eu focava nos seus olhos e reconhecia a vida a esmorecer-se minuto após minuto, cada vez menos cá, mais fraca, mais magra e mais velhinha. Nunca tinha acompanhado a morte desta forma e é muito duro, confesso-vos. Eu sei que é a lei da vida e que tivemos a enorme sorte de a ter connosco tantos anos, mas acredito que ninguém está preparado para ver a morte a chegar desta forma.

No outro dia, meia confusa disse-me “A minha mãe nunca mais chega para me vir buscar”. Nesse dia rezei para que não sofresse mais e que fosse mesmo a sua mãe, de quem tanto gostava, a vir buscá-la. Foi terrível sentir-me impotente, não poder ajudar chegou a ser desesperante. Não podia arregaçar as mangas e resolver a situação, não podia fazer o tempo voltar para trás. Só podia rezar, aceitar e tentar animá-la sempre que possível. E preparar-me, sem saber como, para a sua morte.

Escrevi um texto enorme na semana passada, sobre o que sentia perante o que estava a acontecer. Queria desabafar convosco, mas acabei por não conseguir. Era uma maneira muito crua de me expor. Faltou-me coragem.  Agora também já não faria sentido e a vida respondeu-me desta forma, com mais uma estrelinha no céu e menos uma ao pé de nós!

Sei que agora está bem, ao pé da sua mãe a fazer uma festa no céu! No ano passado publiquei um texto quando fez 95 anos a agradecer a Deus por ter uma avó com tanta idade e onde me referi à sua força e determinação. Já não vou escrever o dos 96, mas agradeço profundamente todos os anos que pude estar com ela. Continuará sempre no meu coração, em todas as lembranças boas que guardo dos momentos que vivemos, das aulas de tabuada, das férias em Ayamonte, sempre que endireitar as costas, ou a sua alegria estampada no rosto quando via as bisnetas…

Este momento dói muito e ainda perece mentira, mas sei que foi o melhor para Oma (como sempre lhe chamei), agora já não sofre mais! A mim resta-me, como escrevi na semana passada, tentar lidar com a morte da melhor forma que eu conseguir e honrar a minha avó com todos os bons ensinamentos que me deu ao longo da sua longa vida!

Obrigada por me “ouvirem”. Apreciem os vossos avós enquanto cá estão.

Beijinhos a todas,
Mónica

 

  1. Tereza Coutinho

    Setembro 5

    Minha mãe também se foi assim, já está pra completar 1 ano mas como dói as lembranças. Eu a vi indo embora todos os dias e estive por perto o quanto pude.Sei que temos que aceitar a morte,mas acho que mães e vovós deveriam ser eternas. Deixo aqui meu carinho.Um abraço.

  2. Maria do carmo de sousa prates

    Setembro 6

    Querida Monica, passei pelo mesmo o último ano e meio, até que dia 19 de Agosto Nossa Senhora a veio buscar. Como me disse uma tia no dia do enterro, ” a avó está nos braços de Jesus” , não temos que estar tristes.
    Mas estamos . E vamos continuar a estar durante muito tempo. Lembrarmos-Nos dela(s), perpetuar o seu legado de exemplos, palavras, histórias e memórias, é uma óptima forma de atenuar a dor.
    1 grande beijinho

  3. Paula Rocha

    Setembro 6

    Olá, é sempre muito difícil para nós encarar a morte, gostava que a nossa cultura fosse diferente e nos ajudasse nesse sentido, eu não tenho avós há muitos anos mas ainda, e graças a Deus tenho pais, o meu com 71 anos está muito debilitado, problemas na coluna que o médico diz que o poderão paralisar.
    Já disse uma vez se não tivesse uma filha preferia ir à frente deles para não assistir ao pior.
    Mas como digo, ele há povos onde a morte é encarada, com alegria, aliás até cantam e dançam, e acreditam em algo, que se nós acreditasse-mos encarava-mos a morte de outra maneira, mas como diz o seu marido vamos tentar ver as coisa sempre pelo lado positivo.

  4. Ana Teixeira

    Setembro 6

    Os meus sentimentos Monica. As meninas devem estar muito tristes. Lembrei-me logo do seu post sobre o aniversario e o facto de ligar a avó a pedir para a trazer…
    Um grande beijinho

    • admin

      Setembro 7

      Obrigada. Beijinhos

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