Secret Story – Grunhos com o Cio em canal aberto

Outubro 23
8 Comments

Olá, olá! Tenho-me tentado aguentar e até hoje consegui não escrever sobre Casa dos Segredos. Já são tantos os blogs, jornais e/ou revistas, a fazê-lo que tenho sentido que não sobra muito para acrescentar, tendo em conta aquilo a que vos tenho habituado.

Eu sou do tempo do BigBrother, estava na faculdade e na altura era o Zé Maria e as suas galinhas a fazerem furor em Portugal. Estava a estudar publicidade e tive imensas aulas apenas sobre o fenómeno de audiências daquele inovador reality show. Depois vieram novas séries e em paralelo foram surgindo programas com pessoas acorrentadas entre si, o Master Plan onde a conhecida Gisela batia no marido e em quem lhe chegasse perto, a Quinta das Celebridades, onde actores brasileiros e figuras públicas portuguesas se sujeitaram a uma exposição gigantesca, etc, etc. Julgo que desde sempre se disse mal de qualquer um destes reality shows. A maioria das pessoas vê e depois diz mal, vê e depois diz mal, como se fosse um ciclo vicioso desprovido de nexo. “Eu não gosto mas vejo”, diz a maioria… 🙁

Pois é, não sou socióloga mas às vezes gostava de o ser para poder entender melhor estas atitudes que contrariam aquilo a que chamo de bom senso. No Secret Story anterior a este, vários limites foram ultrapassados e abriram-se novos precedentes na televisão generalista, mais precisamente em prime time. E quando parecia que já não podiam ir mais longe, eis que surgem novos concorrentes ainda mais grunhos (manipuláveis, primitivos) que os anteriores. A falta de cultura dos participantes sempre foi um dado adquirido, no entanto, a badalhoquice foi ganhando terreno e a falta de pudor, idem. Até hoje nunca vi um episódio desta nova remessa, mas quase que por uma questão de obrigação, pois gosto de ser uma pessoa informada, acabo por ler e ver muita coisa sobre este programa, seja em jornais ou na internet, e o meu sentimento de estupefacção foi crescendo… para depois ser substituído por uma autêntica preocupação relativa à potencial influência sofrida pelos vários tipos de telespectadores da casa dos Segredos. Escrevo este artigo pois acredito que é preciso descodificar a influência que este género de conteúdos, apresentados em canal aberto, poderá ter nas pessoas que se dignam a assistir a tamanho show, onde a carência dos concorrentes é levada ao limite e a agressividade de alguns é trabalhada de forma a ascender no pior cenário possível. Já dei por mim a imaginar alguns perfis de público, não sei se existem mesmo mas calculo que sim. Dou-vos agora alguns exemplos, fruto da minha imaginação fértil, onde tento encontrar resposta para a seguinte questão:

secret story

O Secret Story influencia as familias portuguesas de que forma?

Vamos lá tentar perceber…

A família Monteiro

Senta-se diáriamente à frente do plasma. Pai, mãe, filhos pequenos e graúdos, todos assistem ao Secret Story. Os mais novos, ainda acrescentam algumas horas diárias a  papar vídeos no site da TVI e no youtube, a curiosidade é gigantesca e altamente viciante.

Os adolescentes desta familia adorariam poder um dia vir a ser algum daqueles concorrentes. O mais pequenino, aprende novas palavras que nunca tinha ouvido na escola e apercebe-se que todas aquelas “vedetas” são seres incultos nas matérias mais básicas e que os seus queridos pais até lhes acham piada por isso.

A pré-adolescente, imita em frente ao espelho varias coreografias protagonizadas pelo seu rabiosque. Apesar de ainda “não ter rabo”, pede à Mãe para lhe comprar as suas primeiras cuecas fio dental pois gostava de poder ser tão sexy como a concorrente X.

O pai Monteiro assiste religiosamente a todos os diários e galas, insulta dois ou três concorrentes por noite e mantém um sorriso maléfico, talvez até algo rebarbado, durante cada sessão. A mãe Monteiro já não acha tanta graça àquilo, chegando mesmo a querer discutir quando o apanha a olhar fixamente para este ou aquele strip-tease. Esta Mãe/Mulher tem uma relação complicada consigo mesma pois não encontra argumentos para que mudem de canal. “Se dá na TVI, eles lá sabem o que é bom prá gente…”

A família Braz

A mãe Braz tem o filho mais velho a terminar o liceu e a mais nova a começar. É uma pessoa com pouca alegria pois teve uma vida sofrida. Dedica-se  apenas aos filhos e quando não estão presentes a televisão é a sua principal companhia. No entanto, não há noite ou fim de tarde onde não se agrupem a devorar a Casa dos Segredos. Os filhos, por vezes, entusiasmam-se e até convencem a mãe a ligar para lá. “Temos de votar nele mãe,  já viste se o outro bruto ganha?!”. Só a mãe sabe, mas o Braz junior tem uma paixoneta por um dos concorrentes. Assumiu-se há pouco tempo como homosexual e, graças a Deus, tem todo o apoio da mãe, a sua maior confidente.

Há posters com a imagens desta série, e das anteriores, espalhados pelo quarto da filhota Braz. A mãe não a deixou ver a parte em que houve sexo oral, tapado por baixo de lençóis, mas, esperta que é, acabou por conseguir visualizá-la no youtube, repetidamente, até descodificar cada pormenor. Foi o seu primeiro “filme de adultos”.

Nesta casa, nunca se ouviu alguém dizer mal da falta de senso das pessoas por trás do ecrã. Os filhos aproveitam para crescer em cada episódio e a mãe vai-se consolando por poder estar perto deles.

A família Garcia

Dominam as redes sociais. Do filho mais novo ao avô que lá vive, todos têm facebook e até falam mais entre si online, do que quando se vêem pela casa. O Secret Story é dos poucos momentos em que tiram os olhos dos PCs/laptops/telemóveis. Mesmo assim, assistem com o portátil no colo e vão digitando opiniões. Sabem o nome de todos os concorrentes e trocam premissas sobre cada instante da casa mais vista do país.  Os três adolescentes Garcia, só sabem dizer mal. Riem em redor do computador e partilham vídeos com os amigos e desconhecidos. Põem alcunhas aos concorrentes e seguem blogs e páginas de facebook onde os comentáros fervem sobre cada segredo.

O pai Garcia sempre julgou ter uma família sofisticada e bem formada, investiu em bons colégios e faz questão que os filhos digam obrigado e se faz favor. Tal não foi o seu espanto quando entrou no quarto dos três irmãos e os vê a lutarem desenfreadamente, entre risos e gargalhadas, enquanto tentavam enfiar o dedo no tutu mais próximo. “Mas o que vem a ser isto??!!, que raio de brincadeira incestuosa é esta?!”, gritou o progenitor com a sua voz imponente. “Que é que tem pai? Ele é que começou”; “Não, foi ele!”; “Oh pai isto não tem mal nenhum, é só brincadeira, vais dizer que não viste ontem os gajos do Secret a brincar assim?!”

A família Guedes

Vivem uma situação de desespero a nível financeiro. Não têm internet em casa e os seus pequeninos tempos livres são passados em frente aos quatro canais nacionais. A alegria de suas vidas é o casalinho que brinca pela casa. Estão na primária e já vêem o Secret Story.

É um casal com pouca escolaridade e a vida não lhes dá acesso a muita informação. Trabalham 12 horas por dia (a contar com o tempo que passam em transportes públicos) e fintam as contas com muita dificudade. Já estão na casa dos quarente e sentem pena por não haver um reality show para pessoas desta idade. Poderia ser a oportunidade de dar o salto… O sentimento é aspiracional, vêem e revêem a Teresa Guilherme e em cada dia ganham novas emoções. Têm opiniões muitos próprias sobre os concorrentes e suas famílias. “Se lá estivesse eu, não me apanhavam naquela figura!”, “mas se quisesses ganhar tinhas de o fazer, a malta quer ver cenas picantes“, “pois nesse caso és capaz de ter razão, também se pensarmos bem até nem tem muito mal,  mas podia ao menos ter limpo a boca por baixo do edredon….”, “pois, podia!”, concorda o marido no final da conversa.

A família Morgado

“Como é isto possível!” é a frase mais ouvida em casa dos Morgado. È uma família de cinco e prezam-se por ser pessoas de bons valores e prícipios. Vão à missa ao domingo, andam e andaram em colégios católicos e têm uma panóplia de tecnologias ao seu dispor. O pai recusa-se a ver a Casa dos segredos e repreende os filhos sempre que o fazem. No entanto, não arreda pé da sala. Finge que lê interessantes notícias no ipad e vai mandando umas bocas sempre que não resiste. “Como é isto possível” resmunga muitas vezes entre dentes…. Os filhos e sua mulher ignoram o pai, até lhe acham uma certa piada pois sabem bem que no fundo, no fundo, aquele chefe de família DEVORA o Secret Story.

Agora eu poderia ficar aqui seis dias a debitar mil e uma famílias-tipo, mas mesmo assim não cobriria um décimo dos portugueses que assistem à Casa dos Segredos. Sinto-me por isto desarmada. Quem sou eu para apontar o dedo a tanta gente. As pessoas assistem porque apreciam o que estão a ver, digam mal depois, ou não. Nos tempos de hoje, em que se muda de canal como se não houvesse amanhã, ninguém se auto-obriga a ver absolutamente nada. Cada pessoa só vê o que quer. Se não for na televisão é na net, mas o mais comum é podermo-nos dar ao luxo de escolher entre millhares de conteúdos disponíveis. E o igualmente certo é o facto de mais de 1 milhão de portugueses andar a seguir religiosamente este reality show. (dizem uns que anda a perder audiências mas eu acredito que não será complicado, com este formato, infelizmente, ser lider de audiências no meu querido Portugal)

A principal questão que me prende tem a ver com o resultado a que todo este público se sujeita ao ser influênciado durante três meses seguidos, por uma série televisiva que vive do desnorte dos seus protagonistas.

Tenho fé que este grupo de concorrentes não é representativo dos princípios e valores praticados na sociedade portuguesa. Mas, com muita pena minha, é minha convicção que se continuarmos a apresentar este género de conteúdos em prime time, tal contribuirá para baixar o padrão de valores de toda a nossa sociedade. É com uma bola de neve. Se X ganha imenso dinheiro e mediatismo sem ter de saber o nome do nosso primeiro-ministro, então isso não levará a outros jovens a perguntar-se porque terão de estudar? Se estão várias miúdas sem qualquer pudor, a passear-se semi-nuas em frente a todo o país, isso fará com que muitas outras queiram fazer o mesmo. Se o normal é duas meninas andarem a desgranhar-se por causa de um rapaz, conforme passa a televisão nacional em prime time, como reagirão no futuro as nossas pré-adolescentes que vêem agora esta série?

A quem está em prime time numa televisão generalista portuguesa deveria ser exigido outro padrão de responsabilidade. Os canais, privados ou não, deveriam ser obrigados a manter um certo nível de conteúdos que excluíssem tudo aquilo que influencie negativamente as nossas crianças, pré-adolescentes e adolescentes. É como com os anúncios de bebidas alcoólicas em espaços onde estejam crianças. Se todos os dias uma criança de sete ou oito anos vê cartazes a dizer que o álcool dá prazer, é normal que comece a acreditar que isso é factual. Se os jovens da nossa sociedade virem todos os dias o Secret Story, vão conhecer uma realidade que não os vai inflênciar pela positiva. Antes pelo contrário.

Entretanto, já me alonguei imenso neste texto e só espero ter conseguido explicar bem a minha preocupação. Termino aconselhando todas as leitoras do blog, mães ou futuras mães, a só deixarem os vossos filhos verem esta série, mesmo que com a vossa super-visão, a partir dos… 25 anos! A sério, acho mesmo que o Secret Story não acrescenta nada de bom a nenhuma pessoa. Nem aos concorrentes, nem a quem o assiste. Então porque não tentar simplesmente evitar ver e/ ou deixar ver? Se continuarmos a aceitar que o sensacionalismo vingue na nossa televisão, numa época em que precisamos de ser realistas e de lutar muito por um futuro melhor, numa altura em que os mais pequenos precisam da melhor formação possível para enfrentar os desafios globais, isto em vez de melhorar – piora. Anda meio país a fazer gala a um grupo de grunhos? Espero que não levem a mal mas não faz sentido.

Beijinhos, até já,

Mónica

  1. É daquelas coisas que não consigo perceber tanta adesão por parte do público.
    Enfim…

    http://www.prontaevestida.com

  2. Carlota

    Outubro 23

    Gostava que mostrassem o “doutor” que descobre esta gentinha!!! (Principalmente os “machos” têm um visual nada facil de encontrar no dia a dia…)

  3. Carminho

    Outubro 23

    Grunhos? Isso é uma ofensa aos porcos, hehehe!!! é “juventude” da “nôte”, quais as “discotecas” e afins? isso é que ja é um mistério…

  4. Patricia

    Outubro 24

    Concordo plenamente com o acima exposto… que mundo este!
    Quem está a criar um filho, julga sempre que o seu/sua menino/a será sempre diferente dos outros, porque está a ter a “melhor” educação possível por parte dos pais e que nada e nem ninguém irá mudar isso, portanto não há mal nenhum deixar os filhos verem um programa que se baseia em agressões físicas e verbais e sexo quando lhes bem apetece!
    Enquanto os pais não mudarem a sua mentalidade e tomarem consciência, os nossos filhos serão reflexo de uma sociedade sem valores e princípios porque é “normal”, até dá na TV em horário nobre!!
    Ter vergonha na cara?? O que é isso!?!?

  5. Mariana

    Outubro 24

    Gente de baixo nivel e vendo as familias… pergunto-me, onde encontram dinheiro para fazerem a vida noturna que tanto se fala, além de estarem sempre no ultimo grito da moda!!!????

  6. Luis

    Outubro 24

    A familia Guedes estão desempregados, mas trabalham 12 horas por dia?!?!

    • Mónica

      Outubro 24

      lol, já alterei. Quando escrevi o texto tinha criado mais famílias. Depois achei que tinha exagerado e cortei algumas. Essa frase escapou-me… Muito obrigada,
      Até já,
      Mónica

  7. Sandra

    Janeiro 31

    É o tipo de programa que simplesmente não consigo ver e não consigo entender o sucesso que tem, qual o interesse em olhar para aquelas criaturas?

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