Três pancadas que enriquecem, por Clara Castela

Março 27
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Hoje é Dia Mundial do Teatro. O espetáculo vai começar. Já se ouvem as pancadas do bastão de Molière, secas e consecutivas, sonoras e compassadas. O palco está ainda vazio mas a plateia cheira a golas e écharpes perfumadas e os fatos saíram do armário meticulosamente engomados e enfeitados de gravatas riscadas. Nos bastidores ouvem-se passos apressados e nos camarins, os atores olham-se uma última vez ao espelho para afirmar a personagem. Descerram-se cortinas, sobem-se panos, acendem-se luzes e os primeiros acordes de noites loucas de ensaios estão prestes a tocar. É assim todas as noites, enquanto houver atores, autores, cenas, adereços, tábuas, palavras, figurinos, personagens, teatros e crianças que brincam, e personificam, e ouvem histórias, e dramatizam contos e poemas, e se enfeitam, e criam ambientes e cenários, eternizando a arte Talma brincando ao faz-de-conta. Pois, brincar ao “faz-de-conta”, é o primeiro passo para que esta forma de arte se perpetue. “O jogo simbólico desempenha um papel importante no desenvolvimento cognitivo, mas também no desenvolvimento emocional (…)”. A diversidade de papéis que a criança assume quando apela ao simbólico, ao imaginário, para interpretar situações reais faz com que exprima sentimentos, ideias e emoções que a ajudam a perceber e interiorizar as diferentes realidades que vai vivendo e com que se vai confrontando. A expressão e a comunicação, as interações verbais e não verbais, são aqui exaltadas no ato de brincar, de representar papéis e de os partilhar, envolvendo-se individualmente (construindo a sua identidade) e envolvendo outras crianças. Daqui emergem as relações e os papéis sociais, que todos vamos interpretando ao longo da vida, repartindo enredos, narrativas, cenários e ambientes, que nascem de um qualquer recanto de uma sala de jardim de infância. Para promover esta forma de arte, quer nas nossas escolas, quer num qualquer quarto de criança, deve existir uma caixa, um baú, um cesto que guarde roupas, acessórios, adereços, chapéus, sapatos, malas, um qualquer lugar que possa deixar sair a possibilidade e a urgência da criança se expressar, fantasiar, narrar, comunicar, simbolizar. É igualmente importante que a criança assista a espetáculos teatrais, que disfrute de uma ida ao teatro e que vá adquirindo o gosto e o interesse por esta forma de arte. É nosso dever promover estas ações com as nossas crianças e implicá-las na sua formação artística e na construção da sua identidade.

Abraços e…vão ao teatro!

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